“Há que mudar a medicina dentária actual”

DentalPro: Numa altura em que o sindicalismo parece estar “fora de moda”, criar um sindicato não é remar contra a maré?

António Roseiro: Chame-lhe aquilo que quiser, mas os sindicatos são organismos que actuam nos parâmetros da lei. A resolução dos aspectos salariais, jurídicos e profissionais compete aos sindicatos. Quando se diz que os sindicatos estão a perder força isso não corresponde à verdade. De facto, exibem-se como estruturas essenciais na defesa dos direitos das pessoas e se estivessem a perder força, os médicos dentistas espanhóis, por exemplo, não tinham acabado de fundar o seu sindicato também.

DP: A vossa principal ambição passa pela defesa dos direitos essenciais dos médicos dentistas?

AR: Desenganem-se aqueles que consideram isto um sindicalismo panfletário puro e duro. Nós somos um sindicato democrático, onde tudo se discute em conjunto. Apresentamo-nos como uma entidade livre, que não se irá vincular a qualquer central sindical. O nosso único objectivo reside na defesa dos interesses sócio-profissionais, em particular dos médicos dentistas, e da saúde pública em sentido lato.

DP: O paradigma do profissional liberal caiu “por terra”?

AR: Esse conceito está a mudar, sem dúvida. Temos sete mil dentistas e daqui a dez anos serão 14 ou 15 mil e muitos terão que emigrar ou trabalhar numa caixa de supermercado. Isto vai evoluir para o descrédito, para o absurdo. E a Ordem dos Médicos Dentistas (OMD), os ministérios da Saúde, da Educação e do Trabalho terão uma palavra a dizer, no sentido de inverter esta tendência.

DP: Como se poderá alterar este cenário?

AR: Basta ligar a televisão para perceber que, principalmente nas zonas do interior, 99 por cento da população é desdentada e evidencia graves disfunções orais. O que significa que existem milhares de pessoas a precisar de tratamento, assistindo-se a uma péssima distribuição de clínicas dentárias no país. A verdade é que não podemos obrigar os dentistas a instalarem-se no interior, mas há que conceber estruturas sociais que ocupem estes profissionais na reabilitação oral destes portugueses. Torna-se imperativo integrar os médicos dentistas em sistemas de saúde social.

DP: Refere-se à sua integração no Serviço Nacional de Saúde?

AR: Claro que sim. A saúde oral ostenta uma extrema relevância para o bem-estar da população. Inclusive no plano social, no combate à pobreza. A cárie assume-se como um sinónimo de forte carência. Dou como exemplo a instituição de cariz social a que presido, onde efectuamos trabalho na área da reabilitação oral em jovens, que assim conseguem encontrar trabalho em estabelecimentos comerciais, já que a imagem abrange uma importância elevada na nossa sociedade.

António Henrique Rodrigues Roseiro nasce a 27 de Dezembro de 1938, em Almada. Começa a trabalhar em menino e é já aos 20 anos que ingressa na Escola de Enfermagem Artur Navarro, com a ajuda de dois médicos. Em 1968 regressa aos estudos, concluindo o curso de Enfermagem e Psiquiatria. Em 1977 resolve ingressar na odontologia, concluindo a formação sob a alçada do Ministério dos Assuntos Sociais e da Secretaria de Estado da Saúde. Nos anos que se seguem ao 25 de Abril trabalha como odontologista nos serviços da segurança social, uma altura que recorda “com grande satisfação”. Em 2000 conclui a licenciatura em Medicina Dentária, pelo Instituto Superior de Ciências da Saúde – Sul (ISCS). Dedicado à clínica e ao ensino, destaca-se como membro da comissão instaladora do ISCS – Sul e do Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique. Hoje é regente da cadeira de Liderança e Relações com o Poder, no curso de pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Lusófona e doutorando na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra.


Leia, na íntegra, esta entrevista na próxima edição da revista DentalPro.

25 Maio, 2010
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