Às armas

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Crónica da médica dentista Cátia íris Gonçalves publicada na DentalPro 147, brevemente disponível:

Primeiro – deixem-me que vos diga que faz hoje quinze dias que estou em casa. Só saí para deitar fora o lixo, compras de supermercado, farmácia, deixar alguns bens à porta dos meus pais, comprar um cabo de computador para que a minha filha pudesse fazer os trabalhos de casa, comprar uma viseira para atendimento de urgências e um (um único) café take-away em copo descartável. O que, na realidade, resultou numa saída dia-sim-dia-não.

Segundo – não estamos preparados para uma pandemia. A sociedade, o nosso país ou nós. Nem sequer estamos preparados, do ponto de vista prático, nas nossas casas, para uma quarentena – pelo menos, os lares/dormitórios da classe média trabalhadora. As nossas casas estão preparadas para um estilo de vida rápido, pouco caseiro, desembaraçado, para agilizar a saída de casa, não a permanência nela.

Terceiro – não consegui escrever uma crónica, desde que tudo isto começou. Mesmo agora, tremem-me as mãos – e vocês, que me conhecem, sabem o difícil que isto é: quando a ansiedade me chega às mãos, as coisas não estão para brincadeiras. Aliás, não sendo alguém naturalmente optimista, tenho sempre conseguido preservar o riso; conservo o meu sentido de humor de uma forma compulsiva, durante as fases mais difíceis da vida; e, no entanto, não me lembro de ter soltado uma gargalhada, nestas últimas semanas.

Quarto – não tenho dúvidas de que tudo passará. Mas temo, sim, temo muito pela despesa em vidas humanas que reclamará este maldito bicho, para repor um qualquer sentido de equilíbrio ou justiça que desconheço.

A culpa deste texto estar a ser escrito tão tardiamente é exclusivamente minha: se esta calamidade não nos acontecesse, talvez eu nunca descobrisse que, afinal, também a escrita se me rareia, também eu perco os meus super-poderes, também esta minha salvação através da palavra se escoa quando o assunto é a incerteza diária da saúde e da vida de todos os meus, que são tantos. Sou frágil; fui vergada. Estar fechada em casa não ajuda ao ânimo necessário para combater uma batalha: é quase como estar morto, mas consciente e com memórias, não estando certo de estar a criar alguma. Percebi o quanto da rotina diária salva a alma, mesmo que extenue o corpo e a mente, o quanto a comunicação através de uma barreira física sai severamente prejudicada em forma e conteúdo, o quão repugnante e elevado consegue ser o ser humano, o quanto a liberdade pode ser inconsciente, o quanto a distância aproxima quando o objectivo é colectivo e vital.

Sei agora um pouco do que passaram os nossos avós e pais, durante a incerteza da guerra, da escassez, do valor redentor da família, rede de segurança física, psicológica e emocional; e a força que pode o espírito impelir ao corpo para que se comporte dentro ou fora dos limites impostos, para o bem maior de todos. Orgulho-me da maior parte do nosso povo, que compreende, decide pelo bem do próximo antes de qualquer medida governamental, acata quando é mandatório, mas não deixa de prestar apoio, de abdicar do que é seu, para melhorar a vida do próximo, se organiza para conseguir o que quem, de direito e obrigação, não salvaguardou. Mais uma vez, na história de uma nação humilde, mas rica em solidariedade e imaginação, faz a diferença, no curso dos acontecimentos, a iniciativa pessoal, privada, livre de entidades, sociedades, organizações: a história de um povo que se pautou sempre por impulso do coração, quando os eventos apertam, esmagam e põem à prova o bem-estar e a sobrevivência de todos. Orgulho na minha classe, que nestes pontos se destacou, com nobreza de carácter e uma aglutinação harmoniosa, como nunca antes tinha visto.

Sim, temos ainda muito que aprender, saber os caminhos certos para tornar o que vive em nós visível e prático; temos que ajudar os que se perdem no caminho da razão, da coesão para um bem maior, na escolha daquilo e daqueles que queremos para as nossas “quarentenas”. Mas estamos num início de algo que nos levará a passar uns degraus à frente, na escalada evolutiva de um indivíduo, de uma família, de um país, de um planeta; e que fará parte dos manuais dos nossos filhos e netos, servindo de ferramenta para contar a história de adaptação de uma espécie extraordinária, frente a uma forma de vida assustadoramente grande na sua pequenez, invisível, demolidora e resistente, a qual também conhece bem o poder da capacidade adaptativa para sobreviver e com a qual jogamos um braço-de-ferro fatal, para um dos intervenientes. Numa guerra que conta com várias frentes, várias batalhas.

Que, entretanto, não nos enganemos, ainda agora começou. Não, nada voltará a ser como antes e perdi a segurança que tinha na capacidade de visualizar o futuro: mas sei que vamos estar nele. De luto, com mazelas, marcas na alma, decerto: mas de pé, marchando, como sempre surpreendeu, o Português.

25 Março, 2020
Opinião

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