Ferramentas de IA põem à prova registos dentários
Um novo estudo do King’s College London sublinha que as ferramentas de reconhecimento de voz baseadas em inteligência artificial podem transformar a forma como os registos clínicos são feitos em medicina dentária, mas avisa que, no estado atual, essas soluções ainda exigem uma revisão cuidada por parte dos médicos. A promessa é clara: poupar tempo na elaboração de prontuários eletrónicos; o risco, porém, reside em erros de transcrição que podem comprometer a qualidade dos cuidados prestados aos doentes.
Dez sistemas de reconhecimento de fala postos à prova
Para avaliar a precisão destas tecnologias em contexto clínico, os investigadores ditaram 200 registos clínicos ortodônticos, incluindo numerosos termos técnicos dentários, e usaram as gravações para testar dez sistemas de reconhecimento automático de fala (ASR). Entre as soluções avaliadas encontravam‑se quatro plataformas comerciais — Heidi, DigitalTCO, Dragon Medical One e Dragon Professional Anywhere — e cinco interfaces de programação (APIs) de grandes fornecedores tecnológicos: Amazon, Google, Speechmatics, Whisper e GPT‑4o Transcribe, bem como uma versão combinada, GPT4oTranscribeCorrected, que utilizou o modelo GPT‑4o para corrigir erros após a transcrição.
Os investigadores observaram que todos os sistemas produziram erros de formatação e pequenos erros gramaticais, mas destacaram em particular os chamados erros de Classe 3, isto é, erros que alteram o significado clínico e podem ter consequências no atendimento. Estes erros representaram entre 0,21% e 4,15% do total de erros registados, dependendo do sistema. O GPT4oTranscribeCorrected foi o que apresentou menos erros de Classe 3, com pelo menos um erro deste tipo em 2% das transcrições, enquanto o Dragon Medical One foi o que registou pior desempenho neste indicador, com pelo menos um erro em 66% das transcrições analisadas.
O estudo evidenciou ainda que muitos termos específicos da medicina dentária continuam a ser problemáticos para estes sistemas. A palavra “Essix” foi transcrita de forma incorreta em 97,5% dos casos, e vocábulos como “palatalmente”, “mesialmente” e “bucalmente” também foram frequentemente mal interpretados. Os autores verificaram que o sotaque do clínico teve apenas uma influência modesta na quantidade de erros, mas que a presença de ruído de fundo nas gravações degradou o desempenho de todos os sistemas testados.
IA como apoio, não substituto do médico
Na discussão dos resultados, os investigadores reconhecem o potencial da IA para tornar a documentação clínica mais rápida e eficiente, sugerindo melhorias como a inclusão de indicadores de confiança que assinalem termos possivelmente incorretos. Ainda assim, defendem que a supervisão humana é imprescindível e que o papel do clínico deverá evoluir de autor para editor das suas notas. O autor principal do estudo, Ruairi O’Kane, do Centro de Biologia Craniofacial e Regenerativa do King’s College London, sublinha que as ferramentas de reconhecimento de voz por IA podem “agilizar a documentação e aumentar a eficiência”, mas adverte que mesmo erros subtis de transcrição podem ter impacto no cuidado ao doente.
O trabalho, intitulado “Precisão da transcrição do reconhecimento automático de fala para registros clínicos ortodônticos”, foi publicado online a 3 de novembro de 2025 no Journal of Dental Research, uma das principais revistas internacionais na área da investigação em medicina dentária, antes de integrar uma edição impressa. O estudo reforça a mensagem de que a adoção da IA na prática clínica deve ser feita com entusiasmo, mas também com prudência e com mecanismos robustos de validação humana.
Foto de Elen Sher na Unsplash
28 Janeiro, 2026
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