Reabilitação mandibular com implantes em função imediata – caso clínico
Artigo da autoria de Jaime Guimarães, Médico dentista com Licenciatura em Medicina Dentária pelo Instituto Superior de Ciências da Saúde – Norte (1993); Pós-graduação em Implantologia e Reabilitação Oral pelo Instituto Superior de Ciências da Saúde – Norte (1995); Especialista Universitário em Cirurgia Oral pela Universidade de Santiago de Compostela (1999-2000); Fellow of the European Board of Oral Surgery (2002); Especialista em Cirurgia Oral pela Ordem dos Médicos Dentistas (2017); Membro Fundador da Sociedade Portuguesa de Cirurgia Oral; Diretor Clínico da Bocca Clínica, no Porto.
Introdução
A reabilitação total com implantes dos maxilares edêntulos é, atualmente, um tratamento bem descrito e que já demonstrou poder ser feito com altos índices de segurança, permitindo percentagens de sucesso elevadas. Contudo, este tipo de reabilitação apresenta desafios significativos, frequentemente relacionados com dificuldades tanto na qualidade quanto na quantidade óssea. As soluções tradicionais como os enxertos ósseos apresentam desvantagens relevantes, incluindo maior morbilidade, contraindicações associadas a condições gerais de saúde, menores taxas de sucesso, tempos de tratamento prolongados e custos mais elevados. Estas limitações evidenciam a necessidade de soluções mais eficientes e centradas no paciente para a reabilitação com implantes.
A evolução da implantologia transformou de forma significativa a abordagem da reabilitação total, especialmente com a introdução dos protocolos de função imediata. Esta modalidade de tratamento oferece aos pacientes uma restauração rápida da função e da estética, reduzindo o tempo de tratamento e melhorando a satisfação geral. No entanto, também exigem planeamento e execução criteriosos para garantir o sucesso a longo prazo.
Implantes angulados
Krekmanov (2000) foi o primeiro autor a propor a inclinação de implantes distais com o objetivo de se conseguir um apoio protético mais posterior (diminuindo o cantilever quando comparado com implantes paralelos), evitando técnicas adicionais como levantamento do seio maxilar, transposição do nervo dentário inferior ou a realização de enxertos ósseos. Esta técnica permite ainda a colocação de implantes mais longos, com maior ancoragem óssea e melhor estabilidade primária. Neste estudo não se registou a perda de qualquer implante na mandíbula, enquanto na maxila a taxa de êxito foi de 93% para os implantes retos e de 98% para os angulados. Este estudo demonstrou que os implantes angulados não apresentam qualquer desvantagem biológica e permitem reabilitações mais favoráveis de um ponto de vista biomecânico.
Num estudo de biomecânica de Zampelis (2007) concluiu-se que a angulação de implantes não aumenta a tensão a nível do osso e verificou-se que o stress ósseo é menor quando comparado com reabilitações com cantilever.
A técnica All-On-4
O conceito de reabilitação All-on-4 baseia-se na colocação de quatro implantes para uma reabilitação fixa total dos maxilares edêntulos, sendo colocados dois implantes retos na zona anterior e dois implantes posteriores com uma angulação de 45º, seguindo no maxilar superior a parede anterior do seio, e na mandíbula colocados imediatamente à frente do orifício mentoniano, reduzindo assim a necessidade de transplantes ósseos, permitindo a ancoragem dos implantes em osso de melhor qualidade, possibilitando a utilização de implantes mais longos e diminuindo o tamanho do cantilever protético.
Maló e cols. (2003) avaliaram, através de um estudo retrospetivo, o protocolo All-on-4 aplicado a mandíbulas edêntulas. Foram incluídos neste estudo 176 implantes distribuídos por 44 pacientes, imediatamente reabilitados com próteses fixas acrílicas. Os autores concluíram que a utilização de quatro implantes para suporte de uma prótese fixa em função imediata demonstrou um alto índice de sobrevida (96,7% e 98,2% em dois grupos de pacientes). Num estudo posterior Maló e cols. (2005) avaliaram a utilização desta técnica no maxilar superior, verificando uma taxa de sucesso dos implantes de 97,6% ao fim de um ano. A média de perda óssea ao redor dos implantes foi de 0,9 mm. Mais recentemente, num estudo de follow-up de 10 anos verificou-se uma taxa de sucesso dos implantes de 98,1% aos cinco anos e 94,8% aos 10 anos.
Caso clínico
Apresentamos o caso clínico de uma paciente do sexo feminino, com 52 anos, saudável, não fumadora e sem qualquer patologia relevante. Esta paciente já tinha realizado anteriormente uma reabilitação total superior com implantes, ainda na fase de prótese acrílica provisória.
Desdentada parcial inferior, apresentava apenas sete dentes na zona anterior, afetados por doença periodontal e ferulizados devido à mobilidade acentuada. Após avaliação clínica e radiográfica, decidiu-se pela exodontia destas peças dentárias com reabilitação imediata através de implantes.
Foram colocados quatro implantes “TS System” da marca Osstem e os respetivos pilares “Multi Abutment” (pilares retos nos implantes anteriores e angulados nos posteriores) para função imediata.
A reabilitação protética foi realizada através de um protocolo digital, com aquisição através de fotogrametria e realização de uma prótese em polimetilmetacrilato (PMMA), fresada e maquilhada.
- FIG. 1 – Vista intraoral pré-operatória
- FIG. 2 – Rx panorâmico inicial
- FIG. 3 – Realização de retalho após exodontias
- FIG. 4 – Exposição do nervo mentoniano do 4º quadrante
- FIG. 5 – Exposição do nervo mentoniano do 3º quadrante e definição da posição e angulação do implante
- FIG. 6 – Posição final dos quatro implantes
- FIG. 7 – Imagem com os pilares já colocados. As hastes dos pilares angulados posteriores permitem verificar o eixo de inserção da prótese
- FIG. 8 – Colocação dos “scan bodies” para aquisição da posição dos implantes por fotogrametria
- FIG. 9 – Imagem obtida pelo scanner intraoral, com a posição dos implantes e respetivos pilares
- FIG. 10 – Prótese provisória pronta a colocar
- FIG. 11 – Imagem intraoral da prótese provisória colocada no mesmo dia da cirurgia
- FIG. 12 – Rx panorâmico com prótese provisória
- FIG. 13 – Vista intraoral na consulta de controle de quatro meses
Conclusões
Em conclusão, podemos afirmar que a técnica All-on-4 apresenta as seguintes vantagens:
- Utilização de um número reduzido de implantes, permitindo uma reabilitação total;
- Aumento da distância entre a emergência dos implantes, permitindo próteses em função imediata sem extensões distais;
- Máximo aproveitamento da disponibilidade óssea, permitindo colocar implantes de maiores dimensões;
- Implantes colocados apenas nas zonas anteriores dos maxilares, onde a qualidade óssea é maior, proporcionando taxas de sucesso mais elevadas;
- Evita cirurgias adicionais como enxertos ósseos, lateralização do nervo dentário inferior, etc.
Bibliografia
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Maló P, Rangert B, Nobre M. All-on-4 immediate function concept with Brånemark System implants for completely edentulous mandibles: a retrospective clinical study. Clin Implant Dent Relat Res 2003; 5:S2–S9.
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Zampelis A, Rangert B, Heijl L. Tilting of splinted implants for improved prosthodontic support: A two-dimensional finite element analysis. J Prosthet Dent. 2007 Jun; 97(6S): S35-S43.
14 Abril, 2026
Caso Clínico













