Reforma urgente na medicina dentária: SMD “exige” regresso aos seis anos de formação
No passado dia 27 de maio, o Sindicato dos Médicos Dentistas (SMD) reuniu-se com a Secretária de Estado do Ensino Superior, Cláudia Sarrico, numa audiência de “elevada relevância institucional para o futuro da medicina dentária em Portugal”. De acordo com o SMD, foi uma reunião marcada pela “frontalidade, pelo sentido de responsabilidade e pela firme convicção de que o país já não pode continuar a adiar uma reforma estrutural profunda no setor”.
Ao longo da reunião, o Sindicato dos Médicos Dentistas expôs, de forma clara e fundamentada, a profunda preocupação da classe perante o atual estado da profissão, consequência direta de anos de ausência de visão estratégica, insuficiência regulatória e sucessivos adiamentos políticos que conduziram a medicina dentária portuguesa a um cenário de saturação e crescente fragilidade. O Sindicato denunciou o desajustamento gritante entre o número de vagas no ensino superior e as reais necessidades do país. Portugal apresenta atualmente um número de médicos dentistas largamente superior aos rácios internacionalmente recomendados pela OMS, realidade que compromete a sustentabilidade da profissão, fragiliza a qualidade formativa e potencia fenómenos de precarização absolutamente inaceitáveis.
“Perante este cenário, fomos absolutamente inequívocos: exigimos uma reforma séria, estrutural e corajosa dos cursos de medicina dentária em Portugal, bem como o regresso ao modelo de formação de seis anos, condição indispensável para devolver exigência, diferenciação, maturidade clínica e verdadeira autonomia profissional aos futuros médicos dentistas. A redução da duração do curso produziu consequências profundas e hoje visíveis. Assistimos à perda progressiva da autonomia clínica dos jovens colegas, frequentemente lançados num mercado saturado, desregulado e marcado por relações laborais indignas, exploração, instabilidade e crescente desvalorização da profissão”.
O SMD alertou igualmente para indicadores profundamente alarmantes: cerca de 57% dos recém-licenciados pondera emigrar e aproximadamente 40% dos estudantes de medicina dentária admite querer abandonar o curso quando confrontado com a realidade do exercício profissional em Portugal. “A precariedade, o desemprego qualificado, a emigração forçada, a erosão da dignidade profissional e outras situações particularmente gravosas não surgiram por acaso. São o resultado direto de anos de inação política e da ausência de reformas estruturais que sucessivos governos optaram por evitar”.

Luciana Coutinho, Cláudia Sarrico (Secretária de Estado do Ensino Superior), João Neto e João Miranda de Azevedo
No decorrer da audiência, foi ainda entregue à Secretária de Estado um dossier reivindicativo contendo a “Tomada de Posição do SMD”, documento estratégico onde se sistematizam as principais preocupações da classe, bem como as reformas que consideram urgentes e indispensáveis para salvaguardar o futuro da medicina dentária em Portugal.
Importa sublinhar que esta reunião não constitui um ato isolado, mas antes parte integrante de um longo percurso institucional desenvolvido pelo Sindicato dos Médicos Dentistas ao longo dos últimos anos, através de sucessivas reuniões e intervenções junto dos anteriores ministros da tutela do ensino superior, da DGES, da A3ES e de diversas entidades com responsabilidades na regulação e supervisão do ensino superior português.
“O Sindicato dos Médicos Dentistas continuará a assumir, com firmeza e sentido de missão, a defesa intransigente da dignidade da profissão, da qualidade da formação e do futuro das novas gerações de médicos dentistas. Os problemas estão identificados há muito tempo. O país conhece-os. As instituições conhecem-nos. A tutela conhece-os. O que falta já não é diagnóstico. Falta coragem política para reformar”, concluem.
29 Maio, 2026
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