Entre a especialidade e a parede
Crónica da autoria de Cátia Íris Gonçalves, médica dentista, publicada na DentalPro 189:
Fiquei em silêncio demasiado tempo, em estado semi-catatónico, simultaneamente a processar informação e resposta – em modo não-verbal, a memória emocional em assassinato não intencional do pragmatismo – “Sim, sim”, respondo finalmente, reforçando com um “Claro que sim” já em processo de recuperação funcional – quem me lê assiduamente sabe, como quem me conhece bem, que sofro destas “paragens mentais” quando o assunto é sensível, carrega marca ou abalo emocional.
Em 2016, trabalhava em 7 clínicas, distribuindo o meu horário em regularidades semanal, quinzenal ou mensal, consoante a clínica, num malabarismo que desafiava as leis espaço-temporais humanamente possíveis. A minha filha tinha então 8 anos, eu tinha 2 gatos, a par do trabalho clínico já escrevia crónicas para a DentalPro, dava formação e palestras e, mesmo assim, alguma coisa faltava ainda para infernizar um pouco mais os meus dias (e noites). O meu lema era (ainda é) “tudo é possível”, a criatividade era um disjuntor operacional que me ajudava a inventar formas de sobrevivência no caos e sentar era uma acção que acontecia apenas para estudar e fazer slides.
Todos sabemos que o processo de candidatura a uma especialidade é muitíssimo exigente – como convém que seja – mas hoje, olhando para trás no tempo, talvez eu me tenha dividido por cissiparidade e operado em 2 planos de realidade distintos para ter conseguido fazer tudo o que fiz em simultâneo – e, como em tudo na vida, a factura chega, mais cedo do que tarde.
Além dos 30 casos exaustivamente documentados, follow-ups mais longos do que alguns governos portugueses, consentimentos de pacientes espalhados por este belo território nacional (e alguns além-fronteiras também), um site de upload da OMD que enfrentou alguns desafios, encontrei ainda as seguintes oportunidades de crescimento: a impressão de documentação física em clínicas, casa dos pais e gráficas, por não ter impressora em casa (embirração pura), impedimentos humanos vários (dos quais destaco um paciente com um caso incrível em boca que não queria assinar o consentimento por receio de ser reconhecido pela foto intra-oral), pen disks que se corrompiam como prima-donas quando chegavam ao USB do computador, fotografias de belos enxertos com sombras demoníacas que na altura passaram imperceptíveis, datas de consultas que não batiam certo com as datas dos procedimentos fotográficos, técnicas por mim ligeiramente modificadas sem um respaldo científico forte a sustentar e muitos mais testes divinos à minha resiliência que contêm suminho coscuvilheiro que vocês iam adorar mas este formato de comunicação e a minha dignidade não o permitem.
Tudo isto (viagens, impressões, organização documental e trabalho de secretária) ocorriam simultaneamente com a vida e intervenientes já acima descritos, num simulacro qualquer multidimensional quântico, onde o cansaço não encontrava expressão manifesta, sob pena de a linha temporal ter de expandir para este se acomodar.
Tendo acompanhado de perto o mesmo processo através de amigos, nesta nova vaga de candidaturas, revisitei alguns dos sentimentos e pensamentos que experimentei em 2016 – dos relativamente inocentes “e ses?” aos “raispartaestamerdatodavoudesistir” mais intoxicantes que nada mais são que o diabo a tentar entrar, no entanto, o Deus que me animou eficazmente para a conclusão, com sucesso, desta patranha também cá deixou a sua marca – hoje ganhei um ranço incontornável a processos que envolvam papéis, viagens forçadas e pessoas que me faz desacreditar da minha resistência a uma re-investida igual.
Há coisas que só se tem paciência para fazer uma vez na vida e lembro-me de ouvir, numa das muitas palestras que deu, a Prof. Drª Helena Rebelo dizer que fotografava cada vez menos os casos – como me revejo, infelizmente – ninguém, repito, ninguém sabe o que isto implica para alguém que é um verdadeiro clínico: parar a cirurgia, colocar os retractores e espelhos orais, tirar as luvas, pedir ajuda à assistente para aspirar a saliva/sangue e soprar ar por causa da condensação de água, ajustar os flashes, investir 1 ou 2 ou 10 vezes com o paciente a queixar-se do desconforto, da luz nos olhos, da retração labial musculada para conseguir apanhar aquela sutura distal ao sexto que os pares vão apreciar ou valorizar.
Efectivamente, com o passar do tempo, o foco tende para a praticidade e o conforto partilhado entre paciente e nós próprios, profissionais que diariamente reproduzem tecnicamente missões quase impossíveis em boca, suficientes para deixarem a check-list protocolar mais do que concretizada e esticar a paciência (de ambos, diga-se) a níveis máximos olímpicos.
Talvez seja precisamente aqui que mora o equívoco romântico de muitos processos de avaliação: julga-se, de fora, que documentar é apenas registar – não é.
Documentar, quando se trabalha verdadeiramente, é interromper o fluxo de uma atenção clínica que já está toda investida em não falhar ao ser humano de carne, osso, saliva, medo e limite de abertura oral que temos à frente. É suspender o instinto de tratar para alimentar a fome burocrática de provar que tratámos. É fazer de conta que o acto clínico pode ser elegantemente embalado em JPEGs gulosos, PDFs imaculados e legenda cronológica, como se a realidade cooperasse com a ilustração.
Claro que compreendo a necessidade de critérios, de prova, de exigência, de filtragem. Não defendo facilitismos nem laxismos confrangedores embrulhados em fitas académicas. Uma especialidade tem que distinguir, seleccionar e validar com rigor.
Mas há um ponto a partir do qual a demonstração de competência começa a aproximar-se perigosamente de um casting para arquivista obsessivo-compulsivo com disponibilidade automóvel, coluna cervical de titânio e capacidade de multi-tasking superior a uma linha inteira de montagem fabril. E isso, convenhamos, já não mede apenas qualidade clínica: mede temperamento para o calvário, tolerância à fricção administrativa e capacidade para continuar funcional quando tudo à volta conspira para a motivação falecer afogada em dossiers.
A verdade menos bonita, mais feia e mais verdadeira, é que muitos dos melhores clínicos que conheço não fotografam, não publicam, não legendam e não arquivam metade do que fazem porque estão demasiado ocupados a fazer bem feito. A trabalhar, a resolver, a atender pessoas. A sobreviver. Alguns, por pudor. Outros, por falta de tempo. Outros ainda, porque a dada altura da vida se aperceberam de que há uma diferença importante entre construir obra e construir prova da obra – nem sempre coincidem.
Às vezes, quanto mais se faz de verdade, menos sobra de alma para organizar a evidência fotogénica da verdade feita.
Talvez por isso tenha ficado em silêncio, naquele pequeno estado de AVC moral benigno, quando me perguntaram se aceitaria integrar o processo, agora como parte do júri. Porque uma parte de mim respondeu logo que sim – a parte que ama a Periodontologia, a parte curiosa por ver os novos especialistas emergentes desta difícil selecção, a parte que admira a auto-superação, a disciplina cega das coisas difíceis. Mas houve outra, mais ali do lado das vísceras, que se sentou devagarinho no canto da sala interior, apoiou a cabeça ao estilo d’”O pensador” e se sentiu demasiado empática com o lado que ainda está embutido em mim – o lado do candidato. Porque hoje sei melhor o preço de certas coisas. E há custos que não vêm discriminados em edital nenhum: a erosão das reservas emocionais, a vida pessoal convertida em intervalo logístico, o corpo a fazer horas extraordinárias ao serviço de um ideal que, sendo nobre, não deixa de ser uma trituradora sofisticada de tempo e sanidade.
No fim, consegui; e orgulho-me disso. Muito. Mas não romantizo. Não foi bonito, inspirador e Pinterestável como alguns gostam de narrar as suas vias-sacras curriculares, como se o sofrimento validasse automaticamente o mérito e a exaustão fosse uma medalha ao peito de gente superior.
Foi duro, desgastante, burocrático, solitário em muitos momentos e estupidamente absorvente. Teve grandeza, sim, mas também teve muito cocó com M, fé a remendos, vontade quase insuperável de desistir, ódio a pen drives, formatações impossíveis e um desejo recorrente de incendiar impressoras e sites institucionais com uma serenidade quase mística.
Ainda assim, ficou – a prova de que fui. De que fiz. De que aguentei. E de que superei. E isso é inestimável.
Mas repetiria?
(Volto a ficar em silêncio).
20 Julho, 2026
Opinião
