Cientificamente comprovado!

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Crónica da autoria de Cátia Íris Gonçalves, médica dentista, publicada na DentalPro 186.

Colegas! Ergam-se em apoteose. Vivemos tempos de fé! Fé no milagre instantâneo!, fé na embalagem reluzente!, fé no algoritmo que nos diz o que precisamos antes sequer de pensarmos nisso.  

Agora, a fé chega também à medicina dentária, com o selo onírico: “cientificamente comprovado”. É o novo amém versão comercial. Se um produto o diz, então deve ser verdade, certo?  

Recentemente, tentaram vender-me uma “coisa” “inovadora”, “revolucionária”, “com-prova-da-cientificamente” (assim mesmo, com hífens de entusiasmo!). O detalhe anedótico: quando pedi os tais artigos científicos, recebi uma coleção de PDFs que fariam corar um estudo de feira de ciências do 5.º ano: meia dúzia de crianças sem destreza manual e uns quantos pacientes desafortunados com comprometimento motor. Claro, nada mais representativo do público-alvo médio da escovagem diária, como vocês podem atestar na vossa prática clínica diária. Mas o que importa é o marketing, não é a ciência. A ciência real — aquela coisa chata que envolve método, reprodutibilidade, tamanho de amostra, peer review — dá muito trabalho e demora muito tempo. Mais fácil e rápido é colar o selo e seguir viagem. É assim que nascem os unicórnios médico-dentários: “coisas” que “removem o tártaro”, géis que “curam gengivites em 24 horas” e pastas que “regeneram o esmalte” (aquele tecido mineralizado que não se regenera, mas pronto!, detalhes). Por isso, permitam-me apresentar o próximo best-seller do absurdo:  

Tartonit™ — o comprimido antitártaro revolucionário! Coloca-se na boca, dissolve-se magicamente et voilà! Adeus tártaro, adeus placa, adeus culpa. A sua boca, limpa como a loiça da máquina.  

Esqueça o fio dentário, o escovilhão, o destartarizador, os 2 minutos de escovagem, o açúcar, o tabaco ou o stress oxidativo! Tudo isto e muito mais, resolvido com uma pastilha apenas.  

Porque se a vida moderna não nos ensina mais nada, ensina-nos isto: o importante é parecer. E, se vem com o selo dourado de “cientificamente comprovado”, tanto melhor — ninguém vai ler o rodapé a dizer: “Estudo conduzido em 4 cães-da-pradaria previamente expostos a Chernobyl, 1 robô de cozinha e 2 tardígradas”.  

O problema não é a inovação; é a impostura mascarada de ciência. A pseudociência de bata branca, que tenta vender preguiça e facilitismo com vocabulário técnico e citações vagas de “Harvard” e “Estudos Internacionais”.  

A boa ciência não se vende: demonstra-se, com prova de tempo.  

Quando um produto precisa de gritar “cientificamente comprovado” para ser levado a sério… é porque, provavelmente, não o é. 

26 Janeiro, 2026
Opinião

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