“O próximo ano letivo será muito díspar entre as várias instituições de ensino”

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Falámos com Tiago do Nascimento Borges, presidente da direção da Associação Nacional de Estudantes de Medicina Dentária (ANEMD), a propósito da formação em medicina dentária existente em Portugal e dos desafios que se anteveem para o ano letivo que está prestes a começar, mediante a situação que vivemos atualmente. “A formação médico-dentária em Portugal está a passar por um ponto em que necessita de se reinventar, inovar e organizar. Se é certo que a formação em Portugal é largamente reconhecida internacionalmente de forma muito positiva pela sua qualidade, também é certo que não tem sabido acompanhar a rápida inovação científica e tecnológica, perdendo ainda pelo caminho algumas das suas antigas mais-valias”, começa por dizer em entrevista à DentalPro.

E acrescenta: “É inquestionável o impacto que o processo de Bolonha teve na formação médico-dentária aquando da redução do tempo da formação de seis para cinco anos. Isto levou a uma reorganização curricular, que podia ter sido uma oportunidade única para abrir a discussão sobre o que devem ser as competências nucleares dos estudantes no fim do curso de Medicina Dentária em Portugal, mas tal não aconteceu. Foram sacrificadas as ciências básicas dos primeiros anos de formação, essenciais à formação médica de um estudante de Medicina Dentária, assim como uma redução relativamente generalizada do número de atos clínicos dos estudantes. Tudo isto, aliado à falta de debate nacional entre as instituições de ensino médico-dentário, ao aumento drástico do número de estudantes nas instituições de ensino e à saturação da oferta de serviços de cuidados orais em Portugal, com todas as consequências que acarretam, levou aos reconhecidos problemas existentes atualmente na formação. Além destes principais problemas, poderia, por exemplo, ser discutida a falta da valorização das soft-skills, da comunicação médica com o paciente e da deontologia e humanização dos cuidados de saúde oral na formação”.

Tiago do Nascimento Borges afirma ainda que a ANEMD defende, desde a sua fundação, “a criação de um Conselho das Escolas Médico-Dentárias (CEMD), plataforma essencial para a discussão aberta e sincera entre as instituições de ensino sobre os desafios que a classe e o ensino vivenciam. Sem esta plataforma, documentos como a Proposta de Reforma do Plano Curricular do MIMD da ANEMD nunca serão devidamente analisadas e ouvidas pelas instituições, como de facto aconteceu. O início da discussão entre todos é urgente, devendo ser um dos primeiros passos, como vetor central nas restantes discussões, a definição de competências nucleares a ser adquiridas pelos estudantes do MIMD em Portugal. É essencial que todos os intervenientes se unam pelo futuro da classe e do ensino, sob pena de afetar negativamente os cuidados de saúde oral prestados à população portuguesa, desígnio máximo de qualquer médico dentista e, por isso, da classe”.

Para o presidente da ANEMD, “o próximo ano letivo será, à falta de consenso e debate nacional, muito díspar entre as várias instituições de ensino médico-dentário, aumentando as diferenças existentes entre as mesmas. A pandemia da Covid-19 não se resolverá tão cedo, pelo que as escolas médico-dentárias terão de continuar a implementar diversos planos de contingência, quer por imposição das suas reitorias, quer pela realidade única da prática da medicina dentária. Isto continuará a ter um impacto que não deve ser ignorado na formação dos estudantes, devendo as instituições encontrar mecanismos para colmatar esse impacto, onde a aposta em medidas pedagógicas inovadoras e a gestão e organização das instituições será essencial durante o processo. As instituições deverão contar com o contributo dos seus estudantes, através das suas associações/núcleos locais e dos órgãos de representação internos, para a resolução sensata das dificuldades que se colocam”.

Entrevista completa no Especial Formação da DentalPro.

16 Setembro, 2020
EntrevistasFormaçãoMedicina dentária

 
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