Parceria, confiança e tempo: o que define a excelência em prótese dentária
Num mercado cada vez mais tecnológico e exigente, Gonçalo Duque acredita que os fatores humanos continuam a fazer a diferença. O fundador da Oralook, destaca a importância da comunicação, da partilha de conhecimento e do alinhamento entre médico e laboratório para garantir soluções de qualidade — e uma experiência mais segura e transparente para o paciente.
Ao longo destes quase 20 anos de Oralook, como evoluiu a forma de trabalhar com os médicos dentistas e que tipo de parceria considera hoje ideal entre clínica e laboratório?
Em 20 anos muita coisa mudou, principalmente no que diz respeito a questões relacionadas com os processos digitais: precisão, planeamento e previsibilidade, velocidade de execução, formas de comunicação, sejam elas em forma de imagens 2D ou 3D, quer através de descrição pormenorizada dos requisitos técnicos que ajudem no alinhamento das equipas. Se pensarmos na forma como a comunicação deve ser realizada no âmbito da prescrição médica obrigatória — tendo em conta que estamos a falar de dispositivos médicos feitos por medida, quer sejam executados de forma digital ou analógica —, verificamos que, na realidade, pouco mudou. Continuam a chegar trabalhos ao laboratório sem prescrição; outras vezes, apenas acompanhados por pequenas notas em pedaços de papel. Persistem práticas que ignoram ou desvalorizam os protocolos da prótese dentária.
Na verdade, existe ainda uma enorme dificuldade de disponibilidade para colaboração no processo de conceção de soluções, possivelmente devido ao ritmo intenso de consultas a que os médicos estão sujeitos. Esta falta de disponibilidade faz com que, muitas vezes, os trabalhos fiquem interrompidos durante o processo de produção, por ausência de informação adicional necessária.
A melhor parceria entre laboratório e clínica assenta na colaboração. Colaborar implica comunicação, disponibilidade e uma análise conjunta na procura da melhor solução para cada caso, sempre com foco no paciente e no resultado final a apresentar. Não se pode partir do pressuposto de que todos os casos são iguais, nem que o registo de boca, por si só, é suficiente para conceber um trabalho. Da mesma forma, não se deve assumir que um determinado médico ou tipo de caso seguirá necessariamente abordagens já conhecidas por ambas as partes. Cada caso é único, e é através do seu estudo cuidadoso e do desenho da melhor solução que se constrói a relação ideal entre os intervenientes: médico, laboratório e paciente.
No contexto atual de fluxos digitais, impressões intraorais e Cad-Cam, em que momentos continua a ser indispensável a intervenção crítica do técnico de prótese e o diálogo clínico–laboratório?
O técnico de prótese reúne um vasto conjunto de conhecimentos, que abrangem processos produtivos, soluções de materiais, casos de estudo, entre outros. Assim, apesar de todas as ferramentas disponíveis nos processos digitais, a experiência e a visão do técnico não devem ser descuradas, mas sim valorizadas e integradas no processo.
O desenho da solução constitui a etapa mais crítica, sendo essencial garantir o alinhamento entre a visão do médico, os requisitos específicos do caso e o conhecimento que o técnico detém, bem como as sugestões e contributos que este possa aportar. É neste momento determinante que se definem as linhas orientadoras do trabalho, antecipando as diferentes etapas do processo, as provas necessárias, bem como a seleção de componentes e materiais. Importa também assegurar que toda esta informação é transmitida de forma clara, estruturada e consistente ao paciente, através do médico, permitindo-lhe compreender plenamente a solução proposta — tanto do ponto de vista técnico como financeiro. Deste modo, promove-se uma decisão informada, aumentando o conforto e a confiança do paciente, e reduzindo o risco de surpresas ou insatisfação futura.

Que informações e materiais considera fundamentais receber da clínica para garantir previsibilidade e menos alterações ao longo do processo?
Com base na nossa experiência, é fundamental receber da clínica registos com a máxima definição possível das arcadas dentárias e da oclusão. Muitas vezes, a baixa qualidade desses registos compromete o desenvolvimento do trabalho ou obriga à repetição de etapas, implicando o regresso do paciente à clínica e, consequentemente, gerando insatisfação. De igual forma, é essencial dispor do máximo de informação descritiva sobre o tipo de trabalho a realizar, incluindo dados completos sobre implantes, expectativas e requisitos do paciente, bem como fotografias, vídeos, radiografias, registos de cor, maquetes de teste, avaliação de passividade, entre outros elementos relevantes.
A ideia subjacente é que qualquer informação pode ser determinante na definição da solução a adotar, podendo também suscitar sugestões ou alertas importantes para o desenvolvimento do trabalho. Assim, ao reunir esta informação com rigor e objetividade, torna-se possível planear e executar o trabalho de forma mais assertiva, garantindo elevados níveis de qualidade, eficácia e eficiência, com o objetivo final de entregar ao paciente uma solução definitiva.
Que conselhos deixaria aos médicos dentistas que querem melhorar a relação com o laboratório – em termos de comunicação, prazos, partilha de responsabilidade e entendimento mútuo sobre limites biológicos, funcionais e estéticos?
Acima de tudo, é fundamental compreender que um laboratório de prótese dentária é um parceiro. Um parceiro que disponibiliza conhecimento, investimento, recursos humanos e experiência, e cujos contributos devem ser plenamente integrados na construção da solução final. Neste contexto, o respeito mútuo, a confiança, a humildade, a responsabilidade, o profissionalismo, a formação especializada e o foco no paciente são fatores determinantes para a qualidade dos resultados obtidos. Esta relação deve assentar em valores humanos sólidos — valores que, idealmente, deveriam prevalecer em todo o processo.
Um dos principais desafios que se verifica atualmente resulta da forma como a indústria fornecedora de equipamentos e soluções para o setor dentário comunica com o mercado, promovendo, por vezes, a ideia simplista de que basta “carregar num botão”. Esta perspetiva desvaloriza a necessidade de reflexão, comunicação, conhecimento técnico especializado e realização de provas, transmitindo a noção errada de que qualquer pessoa, independentemente da sua experiência, pode produzir próteses com recurso à tecnologia. Como consequência, cria-se uma falsa perceção de poupança, eficácia e eficiência, levando a encarar a prótese dentária como um produto de consumo rápido, quase comparável a “fast food”. No entanto, uma clínica que pretenda oferecer soluções de qualidade deve privilegiar a construção de relações sólidas entre médicos dentistas e laboratório, assentes num verdadeiro espírito de parceria, confiança e responsabilidade partilhada.
O laboratório deve ser entendido como aquilo que realmente é: um parceiro estratégico e um fornecedor de soluções — nunca um concorrente.
Leia a entrevista completa na DentalPro 189.

13 Julho, 2026
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