Bué de Drip
Crónica da autoria de Cátia Íris Gonçalves, médica dentista, publicada na DentalPro 188.
“Drip”, em slang, significa estiloso, alta-costura, caro.
“Bué de drip”, expressão que também é título de um tema musical, usa-se na rua para dizer que “o bro tem grande pinta”. (Ou a… “sis”? Fica em aberto a tradução sociológica do feminino de bro.)
Talvez esse termo, em jeito de arquétipo, se tenha transformado num estatuto moderno sem necessidade de proof of work, quando é disponibilizado como tratamento estético, “anti-aging” e “biohacking”. Um rótulo com “drip” internacional colado a qualquer coisa que prometa ir além da saúde, almejando performance sobre-humana e um corpo à prova de falência, idade e segundas-feiras.
Antes de continuarmos: gosto – e acredito, porque estão comprovados – de muitos dos fundamentos da medicina integrativa e do biohacking. E vou mais longe: acredito que estas novas visões médicas tenham a capacidade e o dever de alavancar a medicina do futuro. Há algo profundamente biológico, lógico e sensato em olhar para o ser humano como um todo, em vez de o fatiar por especialidades, como quem organiza peças num talho clínico: aqui a tiroide, ali o dente, acolá o coração. Agrada-me a visão holística da saúde, a noção de que o corpo é um conjunto de sistemas interligados, que pequenos desvios nas análises podem ser sinais precoces de doenças futuras e que a prevenção vale mais do que a reação tardia.
Na minha área, por exemplo, é hoje indiscutível que a periodontite não é “só um problema da boca”. Sabemos que a inflamação crónica gengival aumenta mediadores inflamatórios sistémicos, que pode agravar diabetes, doenças cardiovasculares e complicar gravidezes. Isto, sim, é integração a sério: biologia, evidência e lógica clínica a conversar entre si.
Muito do que se preconiza, actualmente, na medicina integrativa, faz sentido biológico; muitos benefícios das terapias propostas já se encontram documentados. Mas, há ainda um longo percurso até que esta substitua a medicina convencional, embora alguns a defendam como o Santo Graal da saúde física, mental e espiritual.
A medicina convencional atravessa uma crise de credibilidade. Médicos exaustos e negligentes, sistemas de saúde mal geridos, indústria farmacêutica a pressionar decisões clínicas, hospitais transformados em linhas de montagem de consultas, potenciados pela enorme falta de literacia médica por parte dos utentes. As pessoas sentem – muitas vezes com razão – que estão a ser atendidas à pressa, que ninguém as ouve e que são apenas números numa folha de Excel.
É neste caldo de desilusão e desconfiança que a medicina integrativa tem crescido, nem sempre de forma sustentada e séria, mas como uma espécie de refúgio espiritual com bata branca.
Muitos dos equipamentos necessários para levar a cabo alguns tratamentos preconizados por esta área são extremamente onerosos: isto também faz com que algumas clínicas, incapazes de fazer face a este investimento, enveredem por uma “medicina integrativa mais ao estilo esotérico” ou “Hollywoodesco” – e aí começamos a pisar as linhas daquilo que é suposto a medicina garantir e representar. De repente, abriu-se uma caixa de Pandora: suplementos incomuns mas milagrosos, detoxes imaginários, protocolos secretos, testes duvidosos e diagnósticos criativos. O filtro de “bullshit” fica perigosamente frouxo. E quando alguém questiona, a resposta é quase sempre a mesma: “a medicina convencional não quer que se saiba disto”.
Na nossa área, vemos coisas que roçam o absurdo. Clínicas “ditas” integrativas a defenderem extrações dentárias em massa porque “os materiais usados até hoje para conservar os dentes são perigosamente tóxicos”, a desaconselharem implantes de titânio como se fossem parafusos de arsénico, a afirmarem que um dente cariado pode ser consequência de um trauma de infância.
Isto já não é integração: é delírio oportunista, alimentado pelo medo e desconfiança dos pacientes, em relação à medicina tradicional.
A medicina que realmente melhora vidas nunca nasce de tabelas em fonte cursiva com “terapias inovadoras”, nomes comerciais sci-fi, preços inflaccionados ou aos gritos; nasce no silêncio denso e rigoroso de laboratórios, em estatísticas aborrecidas e em revisões sistemáticas que ninguém tem paciência para ler.
Nem todos os profissionais que aderem a esta abordagem médica encaixam nesta descrição; o problema é distinguir uns e outros.
A área ainda é demasiado recente para se colocar, automaticamente, numa posição de superioridade moral sobre a medicina convencional. Precisa de humildade, de transparência e, sobretudo, de regulação.
Se a medicina integrativa quer realmente ser um caminho sério – e acredito que possa vir a ser – tem de começar por respeitar aquilo que diz integrar: a ciência.
Tem de provar o que promete antes de cobrar fortunas. Tem de parar de vender certezas esotéricas. E, acima de tudo, tem de entender que descredibilizar a medicina convencional não a valida como alternativa eficaz.
Algures, ao lado de abordagens sérias, infiltrou-se uma indústria paralela entre a medicina actual e futura: surgiram cocktails intravenosos misteriosos e milagrosos, testes genéticos com descobertas feitas por inferência, terapias detox para órgãos que já se desintoxicam sozinhos, misticismo embalado em diagnóstico e tratamento.
No plano de tratamento personalizado, muitos nomes com drip – mas nem sempre com proof ou evidence.
Aguardo com otimismo o desenvolvimento desta área, que pode ser promissor, mas infelizmente me parece estar a abrir um precedente que poderá prejudicar quem a ela (ou dela) se quer dedicar (ou beneficiar) com seriedade: o do oportunismo da fragilidade do paciente, através da venda de astrologia com luvas de látex.
22 Junho, 2026
Opinião
