FORMA(TA)ÇÃO

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Crónica da médica dentista Cátia íris Gonçalves a publicar na próxima edição da DentalPro:

Ensina-se tanto e, ao mesmo tempo, tão pouco.
Esmiuça-se tanto de tão pouco que fica a sobrar quase nada para tudo o resto.

“O saber não ocupa o lugar”, dizem-nos, mas ocupa. Ocupa lugar, sinapses, fins-de-semana, tempo, créditos de felicidade, saúde. “A educação é a melhor arma para mudar o mundo”, certo? Certo. Se for honesta, transmitida de forma desinteressada, ou interessada no altruísmo de dar, ensinar, fornecer competências úteis aos outros. E se for equilibrada com vida, com alegria, com conteúdo emocional.

Porque este tema é infinito, tal como o saber, foquemo-nos apenas no nosso percurso académico: 17 anos, no mínimo, a estudar, para se ser médico dentista (no “meu tempo” eram 18). E mais alguns para aprender mais sobre a(s) área(s) específica(s) às quais nos queremos dedicar.

Entretanto, vai-se o tempo útil da descoberta e da decisão, das amizades, dos namoros, da família, dos projectos de vida, de aprender a andar sobre os rochedos, a distinguir as rochas que escorregam, de subir a árvores, de adivinhar o sol que está pelo barulho do dia que começa, de salvar pássaros caídos de ninhos, cheirar o jasmim no final da tarde, observar as crianças, brincar com cães e olhar as estrelas ao frio da beira-mar. 

Antes que possamos aperceber-nos, tornaram-nos vazios, herméticos, estéreis. Sabemos muita teoria, a qual não escolhemos aprender, mesmo sobre os assuntos que nos interessam e queremos aprofundar. Alguém decidiu o que devemos saber ontem, hoje e amanhã. Não percebemos porquê. Não pomos em prática. Não vivenciamos passagens de realidade casual, diária, que nos mostrem semelhanças, sobreposições, paralelismo ou antagonismos daquilo que estudámos. Não utilizamos competências, porque a vida não nos deu tempo para os conhecer e trabalhar, aperfeiçoar. Não conheceremos nunca os dons que não forem postos à prova. Controlamos nada. Numa vida que é um teste diário desperdiçado.

A Formação não pode ser igual para todos e, ao mesmo tempo, mudar de ano para ano, sob orientações e critérios pouco explícitos. O estudo não pode tirar-nos o bom-senso, o altruísmo, a opinião, a coincidência, a descoberta, as emoções que guiam muito do nosso saber, enfim – a vida.
Pactuamos com a formatação cada vez maior de indivíduos infelizes, toscos, sapientes, autistas, pobres na arte de bem viver.

Reestruture-se rapidamente o ensino, as motivações, a massificação e densidade de informação irrelevante, pratique-se mais, viva-se mais, sinta-se mais, priorize-se o “porquê” e o “como” antes de formar e ser formado.

The Logical Song – Supertramp

When I was young
It seemed that life was so wonderful
A miracle
Oh, it was beautiful, magical

And all the birds in the trees
Well they’d be singing so happily
Oh, joyfully
Oh, playfully, watching me

But then they sent me away
To teach me how to be sensible
Logical
Oh responsible, practical

And they showed me a world
Where I could be so dependable
Oh, clinical
Oh, intellectual, cynical

There are times when all the world’s asleep
The questions run too deep
For such a simple man
Won’t you, please, please, tell me what we’ve learned?
I know it sounds absurd
Please tell me who I am

Now watch what you say
Or they’ll be calling you a radical
A liberal
Oh fanatical, criminal

Oh, won’t you sign up your name?
We’d like to feel you’re acceptable
Respectable
Oh presentable, a vegetable

But at night, when all the world’s asleep
The questions run so deep
For such a simple man
Won’t you please (won’t you tell me?)
Please tell me what we’ve learned? (can you hear me?)
I know it sounds absurd
Please tell me who I am

‘Cause I’m feeling so illogical
Digital
One, two, three, four, five
Oh oh oh oh
Unbelievable
Bloody marvelous

20 Agosto, 2020
Opinião

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