Carta aberta de um candidato em período eleitoral

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Texto escrito pelo médico dentista Pedro Ferreira Trancoso na sua página de facebook:

Em primeiro lugar aqui fica o meu discurso de intenções. Não sou imparcial. Sou candidato a vogal do Conselho Directivo da Lista B encabeçada pelo colega Artur Lima. Sou candidato porque acredito num projecto, porque acredito nos colegas que a integram e acima de tudo porque não alinho no discurso gasto e pouco fundamentado de que a Ordem nada fez ao longo destes anos em prol da classe.

Não tenho acesso a escrever em pseudo-revistas de especialidade e por isso uso a minha página pessoal de Facebook para escrever o que me vai neste momento na alma. Quero deixar bem claro que esta a minha posição é estritamente pessoal e que surge depois de ler durante semanas o que incessantemente se tem escrito nas redes sociais. Sei que o texto vai ser longo, mas peço a quem tomar conhecimento deste que se detenha um pouco mais do que o consumo rápido dos nossos dias nos “educou” a fazer.

Na minha página pessoal não corro o risco de ver o que escrevo em alguns fóruns apagado como já me aconteceu a mim e a alguns colegas e como não tenho página na Wikipédia também não corro o risco da mesma ser constantemente alterada por elementos afectos à Lista A e que, com recurso às ferramentas informáticas disponíveis e à georreferenciação, se sabe quem são.

Estou triste por notar que tudo vale para se atingir o objectivo de ganhar as eleições da OMD. Vi pessoas que outrora tiveram responsabilidades na Ordem afirmar que é preciso mudar quando se sabe que durante os tempos, que não foram assim tão curtos quanto isso, em que estiveram em cargos dirigentes ou de destaque académico nada fizeram para impedir o estado a que se chegou na medicina dentária nacional. São os mesmos que provavelmente acham que todos lhes devemos um pouco ou mesmo muito encontrando-se entre eles quem assine como “Primeiro Bastonário da OMD” pois de outra maneira correria o risco de mais de metade da classe não o conhecer. O mesmo que usou sem pudor o facto da morte de dois colegas para, num estilo de carpideira, tentar mostrar o seu lado humanista como se qualquer um de nós não lamentasse toda e qualquer morte seja de colega de profissão ou outra. Até a morte se usou para num gesto de “perfeita hipocrisia” se apelar à abstenção de fazer campanha eleitoral para pouco depois elementos que compõem a lista A o fazerem algumas horas depois nesta mesma rede social.

Não é esta a educação que os meus pais me deram.

Não venho de uma família de médicos ou de médicos dentistas. Estudei numa privada no tempo em que os alunos das universidades públicas faziam greve com vista ao encerramento das primeiras. Não sou filho de pais ricos e tudo o que sou foi conquistado com o trabalho destes e mais tarde, quando finalizei o meu curso, com o meu trabalho. Já lá voltarei.

Não venho para uma qualquer rede social ou revista falar do meu percurso profissional ou expor a minha vida pessoal e familiar pois, especialmente estas duas últimas, são do foro estritamente pessoal. Volto a afirmar que se hoje um número significativo de colegas me conhece é porque trabalhei muito como qualquer colega meu trabalhou, trabalha e trabalhará. Ainda na faculdade tive a clarividência de projectar como seria a profissão 20 anos depois e fui estudar para fora do meu País numa altura em que muitos dos meus colegas já haviam começado a trabalhar. Bastava apenas ter duas mãos esquerdas (sem desprimor para os esquerdinos) para terem uma vida muito, mas muito confortável. Cheios de trabalho e com uma perspectiva de proveito financeiro muitíssimo superior quando comparada com a média dos licenciados na maioria dos cursos disponíveis na altura.

Em vez de abrir consultório e de comprar casa e carro fui a um banco e pedi dinheiro emprestado para me poder dedicar à área da medicina dentária que gostava. Bati a várias portas e a resposta positiva (“que estranho querer estudar doutor, não quer antes abrir consultório”?) só veio quando uma destas instituições bancárias me apresentou uma proposta com 11,8% de taxa de juro. Aceitei e paguei o meu investimento de volta. Aquilo que previa aconteceu e eu estava, fruto do meu investimento, mais bem preparado para o mercado de trabalho. Trabalhei e trabalho em clínicas grandes e pequenas, citadinas e rurais, de colegas conhecidos e anónimos, dou aulas na área na qual adquiri mais competências e exerço ainda os meus direitos de cidadania.

O excesso de médicos dentistas é hoje uma realidade que só preocupa a maioria dos mais velhos pois há 20 anos a não existência de concorrência real permitiu que se acomodassem. O mundo mudou e hoje têm de conviver na mesma rua e às vezes no mesmo prédio com colegas mais novos e muitos deles muito capazes e dignos de ostentarem o título de médico dentista. Como em todas as profissões há de tudo. Novos e mais velhos, mais e menos clinicamente capazes e colegas com maior ou menor respeito pela ética e pela deontologia. Tenho feito de tudo para honrar o perfil médico da profissão que os meus pais me deram a hipótese de escolher. Pena tenho que muitas vezes não veja tal a acontecer de um modo transversal na minha classe.

Não queria falar de mim e acabei por falar e sendo assim aqui vai o resto. Assisti esta semana a um vídeo feito por um grupo de jovens que fala da precariedade no mercado de trabalho com que têm de lidar diariamente após a conclusão dos seus mestrados integrados em medicina dentária. É de ressalvar que esta precariedade não é exclusiva da medicina dentária e o querer isolar este facto de um panorama geral da sociedade portuguesa é, para além de uma atitude de falta de respeito para com os jovens da sua geração, uma atitude sindicalista só comparável com as campanhas de uma qualquer central sindical ou partido político populista. De cara meio tapada e fingindo nada terem a ver com a Lista A consegue identificar-se mais de um destes jovens que se sabe integrarem a referida lista ou serem ex-candidatos na lista apresentada pelo colega Miguel Pavão e que dado não cumprir com a Lei 26/2019 de 28 de Março teve de ser substancialmente alterada de modo a ser aceite pela comissão eleitoral. Erro informático dizem alguns, fait-divers dizem outros mas para quem tem consciência de rectidão apenas se pode designar de inabilidade politica e impreparação. Será isto que o eleitor pretende de quem se apresenta a eleições? Alguns destes jovens foram meus alunos e por isso penso que me deviam conhecer um bocadinho. Posso não ser querido entre todos mas penso ser respeitado por muitos por aquilo que lhes dou de mim nas aulas teóricas e práticas. Ouvi e li com espanto o estilo do vosso grito de revolta contra o estado da profissão, mas tenho de vos dizer que entrar no mercado de trabalho não é confundir o rendimento que um jovem pode auferir hoje em dia com a mesada dos pais. Fiquei chocado por acharem que um médico dentista acorda às 9h, vai trabalhar num carro novo, faz menos de 100km, bebe copos depois das 17h, janta com os amigos de seguida e no fim do mês recebe um rendimento chorudo.

Sejam decentes!!

Ora bem, eu para vos dar aulas acordo às 4.30h em Lisboa, faço 300km de carro, chego às 7.30h da manhã ao Porto, começo as aulas às 8h e apenas saio da faculdade depois das 22h para depois me meter novamente no meu carro com 370 000 km e regressar novamente a casa depois de mais 300km percorridos. Tudo isto por uma remuneração bem modesta, mas com um propósito que é de vos dar um pouco do que aprendi para que se tornem melhores colegas meus quando acabarem. Digo-vos tantas vezes isto nas aulas! Como na cantina e na máquina de venda automática da faculdade e no regresso uma qualquer sandes numa área de serviço da autoestrada. Por demasiadas vezes conduzi tão cansado que antes que tivesse um acidente dormi no carro também numa área de serviço. Por dinheiro? Não, pelo prazer de vos ensinar e de vos ver crescer como colegas.

Gosto de atum, até mesmo em lata, mas não exibo no meu Instagram os magníficos jantares de sashimi que alguns dos meus ex-alunos exibem nas suas redes sociais ou as férias no estrangeiro ou festas da moda que frequentam.

Tenham vergonha!

Conheço a precariedade de muitos de vós. Respeito a dificuldade de acesso ao mercado de trabalho muitas vezes dificultada por colegas mais velhos com poucos escrúpulos e que se aproveitam da vossa fragilidade, ajudo quem me pede ajuda e quer iniciar a profissão, por isso não aceito um vídeo daqueles pois insulta-me enquanto cidadão e enquanto colega e ex-docente de alguns de vós.

É mais fácil ficar na vossa área de conforto. Em casa dos pais, com comida e roupa lavada em vez de irem à luta e se reinventarem. Estou perfeitamente à vontade para afirmar isto pois há 20 anos eu próprio me reinventei quando ainda não era necessário. Olhem à vossa volta e vejam os casos de sucesso daqueles que mudaram de cidade para se tornarem independentes e perseguirem o sonho de serem médicos dentistas. O trabalho não tem de estar na vossa rua ou cidade mas antes são vocês que devem estar onde o trabalho existe. Normalmente este existe onde não existem restaurantes japoneses ou bares da moda.

Estou triste com tudo isto. Uma classe desunida, invejosa, com agitadores populistas que pretendem com a ilusão da mudança atingir o que o nunca lhes foi reconhecido, que fazem o oposto do que escrevem e apregoam (como as consultas grátis e outros atropelos que tal), da sacanice eleitoralista e também do dizer mal muitas vezes com recurso a linguagem que não aprendi em casa, na faculdade ou na vida.

Pela minha parte tudo farei para que a lista onde me encontro inserido ganhe estas eleições mas com lealdade para com os meus pares e a frontalidade que me é característica. 

2 Junho, 2020
Opinião

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