“Passado quase um mês, continuo preocupado”

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Manuel Fontes de Carvalho publicou a 25 de março no facebook a sua preocupação sobre o estado da medicina dentária, “vítima do ataque de um vírus maldito que a paralisou e virou do avesso a vida dos seus profissionais”. Agora, passado quase um mês, aborda o tema da retoma da atividade e as consequências que isso vai ter para o exercício e, ainda, para o ensino clínico nas faculdades:

“Estimados Colegas!

No passado dia 25 de Março, publiquei na minha página de Facebook a minha preocupação sobre o estado da Medicina Dentária, vítima do ataque de um vírus maldito que a paralisou e virou do avesso a vida dos seus profissionais.
Nessa publicação, teci algumas considerações sobre a actuação da Direção da Ordem dos Médicos Dentistas, nomeadamente do Sr. Bastonário, que tardava a assumir, perante os colegas, as responsabilidades, enquanto seu representante máximo.
Passado quase um mês, continuo preocupado (muito mais preocupado!), porque a situação pouco mudou e se afigura um próximo futuro dramático, para não dizer pior.

A Direção da OMD, cujos membros sei estarem a trabalhar diariamente com o objetivo que assumiram, quando foram eleitos, parece-me muito mais limitada desde que ficou “órfã” da liderança, após o anúncio, para eles inesperado, da não recandidatura do Doutor Orlando Monteiro da Silva.
Creio que ainda “apanham os cacos” da explosão que os atingiu coletivamente o que, nesta altura, é profundamente, lesivo dos interesses dos 12.000 (?) Médicos Dentistas. Por outro lado, o próprio Bastonário ficou mais enfraquecido perante os Colegas que, legitimamente, o vêem com menos fôlego para a guerra cujas frentes se alargam diariamente.

Neste quadro, a que se junta a incerteza e se vive a falta de apoio clara do Governo, resta-nos a distribuíção, pela OMD, de umas quantas máscaras de proteção que, sendo bem vindas, estão longe de resolver os problemas de quem os sente diariamente.

Pensando em retoma, é bom que sejamos capazes de refletir sobre o que espera a profissão, sabendo que a esmagadora maioria não sabe como há-de organizar-se, para voltar à sua atividade normal, e quanto isso vai custar sob o ponto de vista financeiro e também sob o ponto de vista da salvaguarda da saúde própria, do pessoal auxiliar e dos pacientes.

Muito se comenta o assunto.

Fala-se da instalação de sistemas de aspiração de aerossóis, da colocação de iluminação ultravioleta, de necessidade de maior espaçamento temporal, entre consultas, para permitir o processo de desinfeção ambiental, da exigência de testes aos pacientes e aos profissionais, da modificação de sistemas de ventilação, dos EPI e da necessária formação de todos os que de uma forma, ou de outra, estão diretamente ligados ao ato de Medicina Dentária que inclui muito mais pessoas do que o staff de cada clínica.

Tudo isto tem de ser pensado e equacionado, antes de ser possível voltar ao exercício pleno, pois, não tenho muitas dúvidas, que se tal não acontecer teremos que enfrentar graves consequências.

Sabendo que existem em Portugal, mais de 5.500 clínicas, na sua maioria dependente de acordos com sistemas convencionados, que pouco mais pagam que o custo de cada ato (e muitas vezes muito menos), é legítimo perguntar se quem de direito já pensou como se vai ultrapassar esse custo acrescido.

Também me parece fundamental, preparar um memorando em que estejam previstos esses custos e as condicionantes para uma reabertura segura de cada uma das instalações, uma vez que essa reabertura não pode, nem deve, ser feita por decreto.

Deve ser ponderada a criação, com o Poder Central, de condições de apoio claro a todos os que não têm condições financeiras (e cada dia que passa mais são), para efetuar os investimentos necessários.
Também com o Poder Central é premente clarificar a situação em que vão ficar as centenas de colegas e seus dependentes que não vão conseguir prosseguir a sua atividade profissional e, aqui, incluo todo o pessoal com que trabalham diretamente: os Higienistas, os Laboratórios de Prótese e respetivos dependentes.

E, a manter-se por mais tempo a atual situação, urge dar resposta às dificuldades por que estão a passar todos aqueles que sendo patrões de si próprios (e isto significa ter, pelo menos, um Assistente de Consultório), ficaram sem qualquer rendimento e com todos os encargos (rendas, créditos, água, luz, telecomunicações, impostos, taxas e taxinhas, ordenados, etc) a seu cargo.

Para além disso, abro um parêntesis para chamar a atenção para o ensino clínico nas Faculdades.

Aí, agravado pelo número exorbitante de Estudantes, têm que ser criadas as condições para que a reabertura das aulas, com pacientes, seja feita com toda a segurança, o que, a não acontecer, pode criar um grave risco de Saúde Pública. Pensando nisso, há que ponderar a possibilidade de os Estudantes verem diminuídas as suas oportunidades de contacto com pacientes, o que abre um horizonte de lucro fácil aos vendedores de cursos de “atualização e formação contínua” que continuam a pulular pelos “vãos de escada” sem qualquer controlo.

Não sendo “velho do restelo”, como alguém me quis classificar, concluo dizendo que esta reflexão deve ser da responsabilidade primeira da Ordem dos Médicos Dentistas que possui, como disse no meu artigo de 25 de Março, todos os meios para tratar destes assuntos: – Influência Política, Comunicação, Assessoria Jurídica, Comissão Científica e demais Pessoal Credenciado.
Oxalá que ainda seja capaz de utilizar todas estas “armas” para dar a resposta exigida e oxalá que o Sr. Bastonário consiga terminar o seu mandato sem que continue a ser alvo da descrença dos seus colegas e que não aproveite os seus últimos meses no cargo para uma travessia no deserto.

Manuel Fontes de Carvalho
(Primeiro Bastonário da OMD)”

22 Abril, 2020
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